A história do pescador que sobreviveu após 438 dias à deriva

Em novembro de 2012, o pescador salvadorenho José Salvador Alvarenga e um colega, chamado Ezequiel Córdoba, saíram de Costa Azul, um vilarejo de pescadores na costa do estado de Chiapas no México, para um turno de pesca em alto mar que deveria durar cerca de 30 horas. No entanto, a jornada de Alvarenga na embarcação duraria mais de um ano, enquanto Córdoba nunca mais pisaria em terra firme.

O pequeno barco de pesca tinha 7 metros de comprimento, um motor de popa e um refrigerador para guardar os peixes. A embarcação foi pega por uma tempestade que durou cinco dias e ainda causou problemas no motor.

Alvarenga resolveu retornar para a costa e os pescadores jogaram todo seu equipamento, inclusive o refrigerador com mais de 500 kg de peixes, no mar, para conseguirem ter mais controle sobre o barco. Quando a dupla já se aproximava do continente e conseguia ver montanhas no horizonte, no entanto, o motor acabou morrendo de vez, deixando a embarcação completamente à deriva.

O vento oriundo da tempestade direcionou o barco para o meio do Oceano Pacífico, o maior da Terra. A área do Pacífico é maior do que toda a terra firme no planeta somada. Com problemas no rádio, Alvarenga conseguiu enviar uma mensagem para seu chefe antes do aparelho ficar inutilizável.

Durante dias, o chefe de Alvarenga e outros pescadores locais realizaram buscas para tentar resgatar a dupla, mas não conseguiram encontrá-los. De acordo com o pescador, após cerca de cinco dias os ventos cessaram, mas eles não conseguiam avistar montanhas em nenhuma direção. Por conta do tamanho do barco, ele também acreditava que eles não seriam vistos por uma aeronave.

Sem suprimentos e direção, Alvarenga e Córdoba passaram a sobreviver de pequenas aves e peixes que conseguiam “caçar” em volta do barco. Eles também encontraram garrafas de plástico, que utilizavam para colher água da chuva. No entanto, Alvarenga conta que, em várias oportunidades, a dupla foi obrigada a beber sangue de tartarugas ou a própria urina para sobreviver.

Ainda segundo o relato do sobrevivente, Córdoba começou a ficar doente por conta da ingestão de carne crua e passou a se recusar a comer. Alvarenga conta que, cerca de quatro meses após a tempestade, o companheiro acabou morrendo por desnutrição.

Sozinho, o salvadorenho conta que contemplou o suicídio após a morte de Córdoba, mas acabou resistindo. Ele diz que manteve o corpo do colega no barco por alguns dias e até conversava com o cadáver para tentar manter a sanidade, mas acabou jogando Córdoba no oceano após cerca de uma semana.

Nos meses subsequentes, o pescador seguiu usando as mesmas técnicas para sobreviver. Ele ainda alega que alguns barcos cargueiros passaram por ele, mas nenhum parou para ajudá-lo. Após exatos 438 dias à deriva, Alvarenga avistou terra, o que ele imaginava ser uma ilha deserta, e abandonou seu barco.

Após nadar até a costa, ele se deparou com uma casa, onde finalmente conseguiu pedir ajuda. O salvadorenho estava nas Ilhas Marshall, localizadas na região da Micronésia. De acordo com especialistas, Alvarenga percorreu entre 8,9 mil e 10,8 mil quilômetros. A distância entre São Paulo e Londres, em uma linha reta, é de 9,4 mil quilômetros.

Após 11 dias internado nas Ilhas Marshall, com pressão baixa e problemas nos tornozelos, Alvarenga foi autorizado a retornar para sua terra natal. Já em El Salvador, ele desenvolveu anemia, problemas para dormir e hidrofobia. Ele também se reuniu com os pais, que não via há cerca de oito anos, desde que tinha se mudado para o México.

A história de Alvarenga causou ceticismo em muitos especialistas, que questionaram as condições de saúde relativamente boas do náufrago. No entanto, nenhuma investigação encontrou qualquer evidência de que o pescador estava mentindo. Pesquisas subsequentes de oceanógrafos, médicos e especialistas em sobrevivência corroboraram a história do pescador. Com isso, ele é a única pessoa registrada na história a ficar à deriva em um barco por mais de um ano.

O pescador passou até por um teste de polígrafo para dar mais credibilidade para sua história. Em 2015, a saga de Alvarenga se transformou em um livro, escrito pelo jornalista Jonathan Franklin. “438 dias: Uma história extraordinária de sobrevivência no mar” (em tradução livre) conta em detalhes a aventura vivida pelo pescador.

Pouco depois da publicação do livro, Alvarenga foi processado pela família de Córdoba, que acusou o pescador de ter praticado canibalismo com o corpo do colega e pediu um milhão de dólares em retratação. Ele nega as acusações e conta, inclusive, que quando a saúde de Córdoba piorou, ele prometeu para o amigo que não se alimentaria do seu cadáver. A justiça ainda não tomou uma decisão sobre o caso.

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